Blog de Angelo Paraíso Martins
  

 

MÃE

Para a mãe de meus filhos.

Neste dia das mães tão querido,
Vejo o quanto  está atarefada ,

Arrumando a casa
Depois de uma semana de labuta,
Para esperar nossos  filhos.


 
Com seu exemplo de mãe dedicada,
Homenageia  a todas as mães do mundo!
Pois como as outras,  é a mais amada
E na cozinha iguarias prepara!

Espera nossos filhos para festejar
Festejar o amor, a doação e a alegria,
Não importando se a dor na coluna chateia,

Se é este sublime amor de mãe
Que corre em suas firmes veias!

Ângelo Paraíso Martins

 

 

 


 

 

 



Escrito por Angelo Paraiso Martins às 20:32:06
[] [envie esta mensagem] []


 
  

QUEM  SOU EU?

Eu sou o homem da periferia;

Sou a mulher feia, sem graça;

Sou a criança que vaga nas ruas;

Sou o “falcão” nascido sem esperança;

Sou todos os momentos bons,

Os momentos ruins e toda desgraça.

 

Sou o idoso e o menor abandonado.

Sou a prostituta sem juízo, desqualificada.

Vendo sexo, vendo drogas, não sei porquê.

Sou o desejo de matar e a  ânsia de morrer.

Vivo na carne dos que padecem agonizando.

Vivo a vislumbrar um futuro negro.

Sou o mais fraco dos homens, já sem desejos.

 

Sou a consciência sem jeito, violada.

Sou também o oposto de todo gosto ruim.

Sou o amor caminhando para mim,

Que me afaga, que me beija,

Que me aguarda e me guarda em suas mãos.

Não questiono, sou na verdade a questão.

Afinal, sou o homem deste século,

Entre sombras vagueio pelo incerto.

Por fim, sou o amor e a dor fazendo versos.

 

Ângelo Paraíso Martins



Escrito por Angelo Paraiso Martins às 22:46:18
[] [envie esta mensagem] []


 
  

 

 

Angelo Paraiso Martins

Salvador - BA

 

Para Ednir

 

Queria ver através de tua lente
O castanho real dos olhos teus
E para sempre guardar latente
Em tuas retinas os olhos meus.


E num romance louco me apossar
Da tua tez e de teus cabelos.
Agarrar-me a eles e poder viajar,
Numa viagem, em volúpia, entre teus pêlos.
E, neste roçar louco, ouvirias os meus apelos.


Num colorido imenso, o tempo,
Varreria a tristeza do nosso olhar.
E todo tempo, haveria tempo ainda
De em ti, por inteiro, me encontrar.


No vazio imenso do infinito
Ou nas praias infindas do mar,
Dançaríamos a sós ao vento
Com teus cabelos a esvoaçar.


Então eu veria através de minha lente,
O castanho real dos olhos teus.
E seriam tão castanhos e tão reais
Que chorariam de amor os olhos meus...

 

Todos os direitos reservados ao autor



Escrito por Angelo Paraiso Martins às 23:19:59
[] [envie esta mensagem] []


 
  

Diante  da indiferença das nações ricas face aos problemas  que o continente africano vem sofrendo, indignado, em 2007, fiz o poema ÁFRICA.

Hoje em 2015 os refugiados de guerra na Síria e  outros países, em sua maioria africanos, morrem aos milhares no mar, por falta de socorro dos países europeus. ” A Europa, rainha, eterna meretriz” como disse Castro Alves em um de seus poemas sobre a escravidão, não socorre os refugiados de guerra. Quem mais tirou  proveito do trabalho escravo? quem mais teve colônias e explorou a África do que os europeus? Ninguém! Pergunto-lhes - ainda querem mais dos africanos? Querem  abandoná-los em pleno século 21? Onde estão os direitos humanos? Onde está a ONU?  A ONU é uma organização figurativa. Quem manda são EUA e os outros países europeus e a China que possuem direito a veto. Todos possuem armas atômicas de destruição em massa. Apesar de toda essa realidade adversa, ainda clamo e me sinto indignado pelo abandono da ÁFRICA e convido a quem lê este poema  fazer o mesmo!

 

Este poema foi publicado no site de Eugênio C.  Almeida em Angola. Abaixo está o Link é só clicar  e vocês vão ver a publicação original  pelo blogspot malambas.

 

http://malambas.blogspot.com.br/2007/01/frica.html?m=1

 



Escrito por Angelo Paraiso Martins às 12:45:06
[] [envie esta mensagem] []


 
  

 

 

Não esqueço de meus tios e tias já falecidos.  Tive com eles um convívio muito próximo em Valença-BA, onde todos moravam e a comunicação era pessoal. Acho que pelo fato da morte de meu primo e irmão Francisco Martins Dias (CHICO), filho de Tia Nair e Tio Estácio, me veio uma lembrança mais forte desses dois tios que tanto quero bem.

 

 

 

Tia Nair e tio Estácio eram pessoas muito carinhosas comigo. Quando eu fazia qualquer traquinagem, ia pra casa de Tia Nair, pois eu sabia que meu pai, Gentil Paraíso Martins, seu irmão, gostava muito dela, inclusive por ser a única irmã. Lá me sentia protegido e ela sempre conseguia dobrar papai. Assim, a volta para casa e o castigo eram mais leves. Lembro que eu dormia muito em sua casa e do mingau de aveia que tomávamos à noite; do rádio sintonizado por Tio Estácio na rádio globo ou em rádios que tocavam dobrados de Filarmónica,  sua paixão. Tanto que ele fundou e era o responsável pela filarmônica Minerva, rival, na época, da Filarmônica  24 de outubro. Ambas tocavam em todos os eventos e disputavam a qualidade de seus músicos que tocavam, unicamente, por amor à música.

 

 

 

 Havia, quase todas as noites, ensaios num sobrado da Praça da República (Jardim Novo, antiga Praça da Lagoa). Chico me contava que Tio Estácio o levava, juntamente com Gentil Martins Dias, seu irmão um pouco mais novo, para o ensaio. Ambos ficavam sonolentos, pois meninos queriam mesmo é estar  no Jardim brincando. Mas Gentil Dias era inquieto e existia um músico meio idoso, Sr.  Miguel, que tocava tuba e, como já sabia de cor, cochilava durante o ensaio e ele, menino,  sorrateiramente,  apertava um dos botões do teclado do instrumento e destoava o ensaio todo. Sr. Miguel despertava com o susto, o maestro parava o ensaio e Sr.  Miguel soprava o instrumento, limpava e tocava de novo e estava tudo certo. Dessa forma o Maestro recomeçava o ensaio. Quando Sr. Miguel cochilava, novamente Gentil Dias apertava novamente uma tecla do instrumento e destoava tudo e assim sucessivamente...

 

 

 

Se eu fosse escrever todas minha lembranças, amanheceria o dia. E para finalizar: eu era tão próximo à tia Nair que no dia do meu aniversário, eu ainda menino, recebia de presente um engradado de refrigerante Frateli Vitta,  com vários sabores: guaraná; suquita; gasosa de limão e outros.  Tio Estácio era distribuidor em Valença deste tipo de refrigerante fabricado na Bahia. Naquele tempo, ainda na década de 50, refrigerante era uma raridade. Beber refrigerante só em datas especiais. Eu pedia a mamãe, Olinda de Góes Martins, que trancasse o refrigerante no quarto de visitas para meus irmãos não tomarem. Dava um a cada. O resto era trancado. Como eu gostava de refrigerante... Como eu gostava e gosto ainda de vocês, Tia Nair e Tio Estácio!!! Por isto esta poesia dedicada a vocês!

 

 

 

TIA NAIR

 

 Dedicado à Tia  Nair Lorena Martins Dias e Tio Estácio Figueiredo Dias

In Memorian

Quando você foi para o céu
eu era adolescente.
Gostava tanto de você  que senti medo.
Seria difícil viver sem o amparo do seu véu.

Quando fiquei homem
Senti que, dentro de mim, você não morreu.
Sua lembrança e a de Tio Estácio
sempre me trazia calma.

Quando você nos deixou,
além dos seus filhos, meus primos,
deixou  muitos órfãos, os pobrezinhos,

que você tanto ajudava...

Deixou também lacunas em Valença:
a procissão de São Cristovão;
o seu sorriso largo e acolhedor;
e a procissão de sua vida para todos, O AMOR!

Quem do século passado
não se lembra da Filarmônica Minerva?
Foi Criação de Tio Estácio.
Tia Nair,  Chico se foi no ano passado,

Terezinha e Estacinho já estão por aí,

Sei que devem estar todos a seu lado.
Não sei quando irei vê-los,
mas  guardarei  todos na  memória
com o mesmo desvelo.

Ângelo Paraiso Martins                                             

 

 

Seguem abaixo três contos de Francisco Martins Dias, ex- professor de engenharia da UNB (Universidade de Brasília), com Doutorado (PHD)  na Inglaterra.

 TEMPO   DE   ESTUDANTE

 Francisco Martins Dias

 

                        O pensionato era um casarão enorme na Vitória, bairro tradicional de Salvador. A  primeira vez que    estive  conduzido pela minha mãe, senti  um misto de medo  e desapontamento. Então como é que me tirava duma pensão no centro da cidade com todo aquele movimento de bondes, ônibus, pessoas e me levava  para aquele prédio feio e escuro ?  Mas mamãe, muito católica, não gostaria do ambiente da pensão onde morava uma senhora gorda andava de amores, não muito  ortodoxo com um senhor moreno, de bigodes, quarentão. Enfim, acomodei-me como pude. De saída, contei logo com a amizade de um gordinho, ex-seminarista  - se não me engano, o apelido dele era Frei – que tratou de me animar, falando que nos fundos havia um campo de futebol, e descendo mais um pouco, o mar. Os quartos, cada um arrumava a sua vontade.

                          No outro dia chegaram a cama e uma pequena mesa de cabeceira, onde ficaram arrumados os livros. Há pouco deixara o colégio interno e começava agora o científico. O pensionato era dirigido por um padre jesuíta, o Padre Torrand, francês de nascimento e há muito incorporado à vida baiana, onde seu entusiasmo pela mocidade e o seu amor à botânica eram por demais conhecidos. De início fiquei num quarto com dois irmãos pernambucanos. Pouco tempo depois, um incidente, mais precisamente uma briga num jogo de futebol com troca de socos e outras gentilezas, levaram-me prudentemente a abandonar o quarto, porque o colega ficara com desejos de vingança.

                          Aos poucos fui me acostumando e melhor ainda, gostando da vida do pensionato. Quase todo o morador tinha um apelido e a bem dizer havia uma boa provida fauna: periquito, bode, urso e ouros que não me lembro agora.

                         Periquito  era um tipo engraçado. Esguio, sem ser magro, cabelos crespos e um nariz levemente adunco. Vivíamos a discutir, nossos pontos de vista nunca coincidiam, e a nos presentear com apelidos e brincadeiras sem maiores consequências.

                           Em uma certa época, em que o verão já vinha chegando e exames de fim de ano também,  surgiu de improviso uma oportunidade de pregar uma peça em Periquito. Naqueles dias havia uma grande animação em torno de um banho matinal recomendado pelo Pe. Torrand, às cinco da manhã, hora em que , segundo ele, e não me lembro por que razões, se absorveria o iodo da água do mar.  Naquela noite estávamos estudando só de calções (fazia muito calor), e já era meia noite. Eu morava com o Periquito no mesmo quarto e o Bode e eu que estudávamos juntos, naquele momento, tivemos uma ideia. Adiantamos nossos relógios de pulso e o despertador para cinco horas e o pusemos a tocar. Periquito acordou meio estremunhado e a contragosto, mas {aquela altura o Bode e eu nos pusemos a criar o cenário adequado, tomamos  a escova de dentes, sabonete e  toalha e disfarçamos como se fôssemos nos lavar, para o que, aliás tínhamos que descer um lance de escadas até a torneira que ficava num pátio sem cobertura. Periquito estranhou tudo aquilo porque afinal fazia só umas duas horas que estava dormindo e ainda era escuro lá fora, contudo, os relógios todos marcavam cinco horas e além disso a nossa encenação fora bem feito. Morávamos no terceiro andar e eu tinha uma câmara de ar usada que utilizava como boia nos meus banhos de mar. Pedi-lhe que a levasse à  praia e fingindo alguma coisa a fazer antes de sair de mansinho. Periquito se levantou meio sonolento e se preparou. Vestiu o calção e arrumou-se todo para o banho. Enquanto isso Bode e eu tínhamos descido para o segundo andar e ficamos à espera para ver o final da brincadeira. Ouvimos os passos de Periquito descendo as velhas escadas com todo o carregamento, inclusive a boia. Pouco antes da escadaria que conduzia à praia, havia um último quarto de um morador que como nós estava estudando para os exames de fim de ano. Periquito ainda antes de começar a descida,  ainda  fez um convite: “Como é, vamos descer para o banho ?”  E o outro, muito espantado: “Que banho, rapaz ?  São meia noite e quinze !”  Periquito levou um choque e ouviu nossas risadas lá de cima. Percebeu então o logro em que caíra.  Com raiva, nem trouxe a boia de volta. Ficou lá mesmo, como testemunha inerte de um banho frustrado.  Ele passou uma semana sem falar conosco. Depois tudo voltou ao normal  e outros incidentes vieram colorir nossa vida de estudantes pobres.



Escrito por Angelo Paraiso Martins às 00:07:43
[] [envie esta mensagem] []


 
  

MEMÓRIA

Francisco  Martins  Dias

O trabalho no instituto  prosseguia monotonamente. Dia após dia a mesma rotina de sempre: bater à máquina, arrumar contas, papéis e atender os professores. Havia a professora Rebeca, chata, presumida com aspecto macilento e modos pouco femininos. O professor Silveira, matemático, aposentado e de ar hostil, parecia um bisão mal humorado. Os outros professores eram ou camaradas ou pelo menos neutros, ou assim me pareciam. Quanto a mim, vestibulando de engenharia, crânio um pouco desorientado e contudo com um forte. E até mesmo inibido senso de autocrítica. Havia ainda D. Herculina, que não atravessava, no momento, uma boa fase. Ela era magra, cabelos pretos, alguns dentes de ouro e uma enorme simpatia, A sua especialidade eram as doenças de fígado as quais a pobre parecia conhecer todas com os respectivos chás e resguardos. A sua outra paixão era o jogo do bicho, cujos tentadores palpites lhe vinham diariamente da interpretação de sonhos complicados. Helena, colega de trabalho, eficiente e objetiva e também amiga e brincalhona, completava o quadro administrativo. Por pouco o vestibular me escapara aquele ano. O dedo do nervosismo me atrapalhou na prova de Química., talvez os problemas com a namorada, minha falta de confiança, seja lá o que for. A realidade era que o vestibular daquele ano estava perdido. Os longos passeios, o mar, o convívio com os amigos, nada conseguia tirar da cabeça aquele peso, aquele sentimento de frustração.  A perspectiva de viver aquela situação medíocre para sempre  me apavorava. Funcionário público, nível sete, ou seja, um dos mais baixos, o que ganhava mal dava para pagar a pensão e de vez em quando ir ao cinema. Felizmente que havia a praia, solução ideal para o fim  de semana com pouco dinheiro. De resto um  concerto sinfônico na Reitoria com entrada franca e bate papos com os amigos.                                                                  

Um dia, lendo o jornal, veio-me a grande notícia: vestibular de engenharia em julho no Rio Grande do Sul !                                                                               

Porto Alegre, na minha imaginação, era um lugar pequeno, acolhedor, com muitas churrascarias e bastante vinho !  E o frio que para mim era desconhecido, pois na Bahia o termômetro nunca ia a menos de dezoito graus. Senti despertar o velho gosto pela aventura e desconhecido. Um cálculo rápido me fez pensar – se não passasse no vestibular, pelo menos conheceria o sul. Se assim o imaginei, melhor o fiz.                                         



Escrito por Angelo Paraiso Martins às 23:41:32
[] [envie esta mensagem] []


 
  

 

Continuação.....                               


E o dinheiro  ?  Ah, o eterno problema econômico... Mas haveria um jeito: ia propor um negócio à Helena. Ela me substituiria  durante o tempo necessário à viagem. Caso passasse no vestibular lhe pagaria em dinheiro do ordenado que receberia, caso contrário , a substituiria em igual número de dias no serviço. Helena aceitou as condições. O pior de tudo mesmo era estudar, ou melhor, repetir tudo o que havia estudado hpa pouco, mas paciência. Comecei a estudar à noite no instituto sozinho e também durante o dia nas folgas do serviço. Particularmente não acreditava muito em mim mesmo, contudo não custava tentar. Pedi um pequeno empréstimo à família que de resto, se não se colocou contra a ideia totalmente, também não me encorajou muito. Vendi um rádio que tinha, minha única distração à noite quando me deitava sozinho e preocupado no quarto pequeno e pobre de móveis. Feitos os cálculos, o dinheiro daria para quinze dias em Porto Alegre. A viagem até o Rio seria de avião. Não que tivesse dinheiro para isso, a passagem me fora dada pelo Instituto um tempo atrás.                                                                                   


O grande dia chegou. Senti-me um pouco deslocado no meio de todo aquele pessoal bem vestido do avião e , de vez em quando, alisava com um gesto furtivo um rasgão na perna direita da calça, colado por dentro com fita adesiva. A viagem me inspirava  certo receio, para não dizer mesmo, medo. Mas lá  em cima pensei: “Agora não tem jeito, não dá mais para desistir.” De vez em quando  parecia que o ruído dos motores ia diminuindo e olhava pela janela para ver se as hélices estavam parando, mas o avião continuava seu voo, sem ligar para estas preocupações. Após o pequeno almoço que me pareceu muito bom, tive que esperar o fim da viagem, como custou a passar o tempo. Afinal, entre nuvens pesadas apareceu o Rio lá embaixo, igualzinho aos cartões postais que já havia visto. Já em terra, dirigi-me à Rodoviária, onde guardei as malas e saí para ver a cidade.                                                                                                                        


O centro do Rio não me  pareceu tão bonito quanto esperava: avenidas largas, muita gente nas ruas, contudo alguns edifícios velhos e sujos me deram uma impressão  de desmazelo. À noite, decidi conhecer Copacabana. Depois de alguns enganos e com a ajuda de cariocas pacientes, consegui chegar ao posto seis. De lá caminhei até o posto dois, procurando sentir a famosa zona sul. À noite, entretanto, não é propícia ao conhecimento de uma praia. As impressões que me ficaram foi de garotas vestidas em calças muito  apertadas e hotéis elegantes. Decidi que seguiria aquela noite mesmo para São Paulo. Passei a noite viajando e dormindo também.  De manhã cedo me esperava na cidade um frio como nunca sentira. Batia queixo pela rua, pois o casaco leve que trazia era de algodão. Foi o meu primeiro contato com o frio do sul. Tinha um endereço de um amigo na Lapa e decidi visita-lo. Não o encontrei, aproveitei para comprar no comércio do bairro, meu primeiro abrigo de lá, um suéter cinza que me deu um pouco de  conforto. Depois de olhar as vitrines do centro e observar um pouco a cidade, comprei a passagem para continuar a viagem. Como tinha japoneses na rodoviária  !  Parecia uma invasão do país do Sol Nascente . Não obstante seu grande movimento era, para surpresa minha, organizado. O ônibus para Porto Alegre era limpo e eficiente. Aos poucos a paisagem ia se modificando e  começaram a aparecer os pinheiros, os quais via  pela primeira vez ao vivo. Paramos pouco  tempo  em  Curitiba  onde  fazia  um  frio de rachar e  logo continuamos. As refeições ao longo da estrada eram, de modo geral, boas. Percebi desde logo as diferenças regionais de comidas. A influência da cozinha italiana era flagrante. Sem maiores incidentes, o ônibus chegou em Porto Alegre à noite. Era uma noite fria e chuvosa de julho. Do ponto onde desembarquei podia ver  a silhueta dos edifícios da cidade, adormecida àquela hora.                                                                 

Pedi ao primeiro garoto que me apareceu o endereço de um hotel perto e que não fosse caro. Ele mesmo me ajudou a carregar as malas, o hotel não tinha um aspecto muito bom, era de segunda ou terceira classe. Fiquei desanimado quando me disseram que àquela hora  não tinha banho quente, só de manhã quando a serpentina fosse aquecida. Contudo o encarregado indicou um hotel perto onde tinha chuveiro elétrico e podia se tentar um banho. Por sorte,  o gerente do outro hotel era pernambucano, quando me ouviu falar que era da Bahia e tinha vindo fazer vestibular atendeu o meu pedido e inclusive me aconselhou a deixar o primeiro hotel  pois lá havia casos de roubo.                                                            No outro dia, cedo, mudei-me para lá.  Agora era  o reconhecimento da cidade e das repartições onde precisaria ir. Achei a cidade fria e pouco acolhedora e pela primeira vez no hotel, à noite, comecei a pensar se não era uma grande maluquice aquilo tudo que estava fazendo.                                        


Os dias seguintes foram ocupados pela matrícula na Escola de Engenharia, aonde fui conduzido por  um rapaz, também vestibulando, que encontrei na rua. Finalmente, depois de uma procura de vários dias, consegui localizar a Casa do Estudante. Depois de me apresentar a um dos moradores, conseguiram-me  um quarto. Por sorte consegui uma vaga junto a um estudante de Engenharia que estava terminando o primeiro ano e que procurou me auxiliar com sua experiência. Sentia-me um pouco só e meio perdido no meio de tanta gente estranha. Nem uma cara conhecida, nenhum amigo para trocar ideias. De noite o frio me deixava enregelado e sonolento e tinha que me enrolar com o cobertor para  estudar. O exame era à noite e não nos deixavam entrar na escola senão à hora marcada. E ficávamos uma turma de esperançosos a relembrar uma fórmula de última hora ou perguntando-nos como seria a prova daquela noite, o que poderia cair nos exames, enquanto o vento frio nos fustigava o rosto. Já na sala, ficava massageando as mãos uma na outra, num inútil esforço para aquecê-las.  Por fim conseguia escrever de algum modo e ia até o fim do tempo permitido. Venderia caro o meu esforço !  Já no fim dos exames (só faltava o de Matemática) , aconteceu o imprevisto. Um político conhecido estava de visita à cidade e por puro desfastio fui olhar de perto as manifestações hostis a sua presença e, de repente, senti um golpe forte na cabeça, virei-me para trás e olhei, não vi ninguém. Passei a mão no local atingido e senti algo morno e pastoso, era sangue. Alguém me atingira com uma pedra ou coisa semelhante. O colega que me acompanhava foi comigo até o Pronto Socorro onde levei uns pontos. Quando cheguei à  casa fui assaltado pelo medo de não poder participar do exame final e pensei: “Que azar, vim de tão longe para levar uma pedrada.” Contudo me restabeleci prontamente e pude terminar os exames. Enquanto esperava o resultado fui ao Correio e diplomaticamente mandei um cartão postal para casa, preparando o ambiente, pois dizia que não tinha me saído bem em Química e Desenho, entretanto restava a esperança de classificar-me.                                                      

Qual não foi minha surpresa, quando um dia na Escola, procurando na lista, encontrei o meu nome ! Passei em nono lugar entre os cem aprovados. Saí sorrindo para todo mundo na rua. De repente a cidade me pareceu bonita e simpática. Telegrafei imediatamente para casa anunciando a vitória. No outro dia tomei um ônibus para voltar. Fui visitar meus pais antes que as aulas começassem. Nem senti o cansaço da viagem. Ia de alma leve e coração tranquilo. 

 



Escrito por Angelo Paraiso Martins às 23:39:46
[] [envie esta mensagem] []


 
  

Segundo conto de Francisco Martins Dias

SEU    

 

Francisco Martins Dias


 Mais uma vez me preparava para o veraneio. O cais da cidade pequena ainda adormecida começava a iluminar-se com os primeiros raios de sol, destacando as silhuetas dos barcos, que balançavam mansamente nas águas escuras do rio. Depois da chegada de outros passageiros, a lancha pôs-se em movimento,  e as casas à beira do cais começaram a deslizar lentamente. Meu primo, muito brincalhão, chamava nosso barco de “Puc-puc de Abel”, numa alusão direta às batidas ritmadas do motor roceiro da lancha de Seu Abel. Mais um pouco e o rio encontrava-se com o mar abrindo-se num largo estuário. Gostava de subir para a cobertura da lancha e ficar olhando a água que espumava na passagem, tornando-se mais e mais azul à medida que nos aproximávamos do mar aberto.  Ao longe avistávamos a ilha de Tinharé com suas vilas de pescadores pequenas, como que perdidas no tempo. Seguíamos para uma destas vilas, o Morro de São Paulo. Desembarcávamos num pequeno trapiche, o Portolá, subíamos uma escadaria cimentada que conduzia ao centro do lugarejo. A vista lá de cima é maravilhosa e o pôr-do-sol à sombra de uma velha jaqueira é de extasiar. Lá embaixo o mar azul e tranquilo parece ignorar em que grandeza e profundidade  o homem que  cansado da eterna corrida sem sentido, para um pouco e olha a beleza do lugar.                                                      

Há um farol encravado no alto de  um morro.  A fonte Grande,  aonde todos vão se banhar no seu jorro forte e intermitente, diz que faz velha virar menina. Tem ainda as ruínas da Barra, antigo forte português,  onde as tardes são frescas e as águas batem sem cessar no antigo e sólido paredão. No Morro, tudo é encanto e paz. Seguimos ao longo da praia, já  no  outro lado da ilha. Mais adiante, em frente à  fazenda de meu tio, está a Ilha da Saudade  que pode ser visitada com maré baixa.  A  fazenda é uma grande plantação de cocos, desde a praia.  Atravessamos um portão de madeira e chegamos à  casa do administrador. A casa é modesta, na sala uma antiga cômoda desbotada faz as honras aos visitantes. Um estreito corredor conduz ao quarto e à cozinha. Seu Zé, o administrador, é um homem interessante, magro, de compleição franzina, que parece ter uns setenta anos. Seu rosto sulcado de rugas cavadas pelo tempo é o retrato vivo do trabalho duro e mal remunerado de toda uma vida. A sua figura frágil, mirrada tem, contudo uma dignidade  que nos chama logo a atenção. Há cerca de uns trinta anos viera do sertão trazido pela seca que assolava a região. E foi  ficando.  Às vezes ele se queixava da indolência do homem da praia, “são preguiçosos, no sertão é que se trabalha”, dizia. E relembrava com saudade as cenas de sua terra: o leite fresquinho de manhã, a fartura quando chovia. Contudo, quem  sabe, o mar com sua magia o prendera àquela terra, talvez para sempre. Na fazenda não há luz elétrica e à noite ficávamos à luz do lampião, conversando, ouvindo casos. Ele conhecera nossos pais quando mocinhos e nos contava as aventuras deles naquele tempo. Às vezes me sentia tão cansado do dia passado na praia que quase não aguentava de olho aberto e acho mesmo que algumas vezes dormia e  Seu Zé continuava falando. O pobre homem vivia sozinho e era natural, que quando encontrasse alguém com quem conversar, aproveitava ao máximo. Gostava também de mostrar sua erudição, fazendo-nos perguntas sobre figuras conhecidas e assuntos que lia em velhas revistas que lhe presenteavam.                                                                                 


Geralmente depois do jantar seguíamos para a vila pela praia. No escuro o céu é muito mais bonito !  A  claridade suave das estrelas  destacava  o escuro da folhagem dos coqueiros que se agitavam com o vento brando. Em certos trechos da praia mais afastados e com a maré cheia, tínhamos que passar com os pés na água. Bem em nossa frente, no alto, estava o farol rompendo a noite, a intervalos, com a sua luz forte.  Já tarde  da noite, voltávamos para casa, prestando atenção no caminho, pois podia haver cobras.                                                                                                                     

De manhã o sol já era alto quando  levantávamos. Debaixo dos coqueiros olhávamos maravilhados o espetáculo do mar em tons de verde e azul e a renda branca de espuma ao longo da praia.  A vila durante o veraneio    fica mais movimentada com o pessoal que vem da cidade e se instala nas casas novas e bonitas num flagrante contraste  com as dos pescadores do lugar. Entre os naturais da vila simples e sem ambições, havia um padeiro que gozava a fama de trocar de mulher todos os anos, valendo-se de um processo sui generis: convidava os amigos para uma grande festa no fim da qual, com álcool a transpirar por todos os poros, surrava a infeliz consorte, substituindo-a por outra. Apesar de feio como ele só, Zé Pretinho tinha bom gosto, escolhia sempre a mulher mais bonita da vila.  Havia também Seu Bonzinho, espécie de delegado do local, cuja bondade ficava só no nome.                                                                                                                                 


Quanto às mulheres, dois tipos ressaltavam: Dona Tiló e Lica. A primeira, incorrigível bisbilhoteira tinha, porém uma incrível habilidade em introduzir-se  nas casas dos veranistas e filar um almoço ou jantar para o qual se auto convidava. Quanto à segunda, todos temiam sua língua. Era meio afetada e só funcionava bem quando se tratava de esmiuçar a vida das pessoas naquelas partes em que é preferível uma certa discrição.       

Gostava de andar pela praia e às vezes ia sozinho, catando conchas  e fazendo o intenso contato com a natureza. Os dias passavam rápido. Numa manhã  bonita   fazíamos nossa bagagem e nos despedíamos do velho amigo. Já na porta da fazenda nos virávamos e acenávamos mais  uma vez. Lá estava ele, uma figura frágil e simpática, sem queixa à solidão.



 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



Escrito por Angelo Paraiso Martins às 23:36:07
[] [envie esta mensagem] []


 
  

O ano que passou foi nebuloso e triste. Foi de grandes e sentidas perdas. Dentre os entes queridos que perdi, você Chico, primo e amigo queridíssimo, era como irmão! Não esperava a sua partida. Estávamos de encontro marcado aqui em Salvador. De repente você adoece e em menos de uma semana, parte para o céu deixando-me a fitá-lo, procurando suas lembranças que nunca sairão de mim.

Publico agora o poema que fiz quando soube de sua partida. Você se foi em novembro, mas toda vez que sentava no computador o sentimento da perda me travava, era como se eu perdesse os sentidos. Só agora lhe presto esta homenagem, mais ainda com o coração dilacerado!

Mais adiante vou publicar  três contos que você deixou escrito e que me foi passado por Cida, sua companheira querida.

Como é difícil falar de sua partida, da sua simplicidade de homem culto; do seu PHD de engenharia obtido com muito esforço na Inglaterra; da Universidade de Brasília que você lecionou até se aposentar; do seu gosto musical refinado e de sua bondade incomensurável. Foram tantas coisas boas e construtivas que você me passou nesses anos que antecederam sua morte... Mas, para mim, você ainda permanece aqui. De acordo com o SERMÃO DA MONTNHA, disse CRISTO: " Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra ". Você não se foi, continua comigo!

 

PARA O MELHOR AMIGO

Ao querido primo e amigo Francisco Martins Dias – In memoriam

 

Neste momento não existem palavras

que confortem minha humana pequenez.

Só me resta o triste luto, foi-se a lucidez.

O rosto plácido, a palavra amiga,

Já não estão mais comigo.

 

Neste acre dia, me sobrevêm a dor.

A perda do meu melhor amigo.

Como viveu aqui na Terra,

Vá em paz, meu bom Francisco.

A morte não nos separará.

Em espírito, estaremos juntos a caminhar!

 Ângelo Paraiso Martins

Depois de passar esta tormenta com perdas sucessivas, como do meu primo e irmão Francisco Martins Dias e logo depois do meu primo e compadre Roberto Goes, olhei para os quatro cantos e deparei-me, como sempre, com você Ednir. Então, Fiz este soneto abaixo para você, RAZÃO MAIOR DO MEU VIVER!

 OS VERSOS QUE FICARÃO

À Ednir, esposa, companheira, musa e amiga.

A poesia que não gostaria de fazer
É repleta de versos incontidos,
De uma tristeza que não sei dizer
Como se fosse  grande castigo.

Serão versos fúnebres de verão,
A partida de um grande amigo.
Quando as lágrimas por fim rolarão
Num deserto imenso, sem abrigo.

Aonde eu for a tristeza irá comigo.
Por fim, cairei a teus pés, musa amada
E direi o quanto de ti preciso!

Os teus carinhos me farão poeta
E sussurrarei  a teu ouvido:
Só por nosso amor ainda vivo!

Ângelo Paraíso Martins



Escrito por Angelo Paraiso Martins às 23:50:07
[] [envie esta mensagem] []


 
  

Hoje, 06 de dezembro, fazemos 40 anos de união, companheirismo, cumplicidade, afeto desmedido, egoisticamente desmedido. Mas o amor não se mensura. Cada qual leva até onde vai  seus sentidos, sua capacidade afetiva e, se vale a pena, luta com todas as armas do bom combate para continuar com este amor a seu a lado. Por isso, homenageio esses 40 anos junto a Ednir com o poema abaixo, pedindo a DEUS que perenize este amor: HÁ QUE SER ETERNO!


TEMPO DO AMOR

 Para Ednir, no quadragésimo ano de nosso casamento.

 Quantos beijos me deste,

Quantos beijos te dei!

Faz quarenta anos.

Contar eu não sei

Quantos beijos te dei!

 

Quantos dias sem ti?

Isto sei de cor!

A dor era tanta

Que agora me espanta

Como consegui

Estar hoje aqui.

 

O amor é assim:

Quando sentimos a perda

O coração dispara

E sentimos que vamos sucumbir.

Quando sentimos chegar a morte,

Disparamos a flecha da sorte...

 

Se acertamos no alvo,

Por pouco somos salvos

De uma tristeza sem fim.

Quantas vezes nosso amor

Esteve à beira da morte?

 

Mas, o amor faz milagres,

E não quer que acabe

Nosso sonho sonhado,

De amor entregado

Há tanto tempo!

E até ele conspira

Pra que este amor tão bonito,

Fique escrito em teu livro! 

 

 

 

Ângelo Paraiso Martins



Escrito por Angelo Paraiso Martins às 22:48:51
[] [envie esta mensagem] []


 
  

O AMOR...

 Para  Ednir, meu único e grande amor, em 18/10/2014

Há que apagar a dor que fere

Em amores  sólidos e bonitos,

Há que  florescer  a  quem adere

Ao puro amor, e dele,  ecoar seu grito!

Ter a certeza que não foi abatido

Pelas incompreensões passageiras,

Posto  que, o amor é seu abrigo,

E, no amor, viveu a vida inteira.

 

Resistiu a tormentas e perigos,

Se  reerguendo em prantos sofridos

Sabendo que o amor não é besteira,

Mas diamante que fica na peneira,

Para enriquecer a  amizade verdadeira

E afastar a dúvida do amor incontido!

Ângelo Paraiso Martins



Escrito por Angelo Paraiso Martins às 00:26:13
[] [envie esta mensagem] []


 
  

 

TRISTE ÊXODO

 

Como é triste, o pobre, sair de sua cidade,

vir morrendo de saudades,

Sofrer em terra alheia...

 

Senhores urbanistas,

Como arrancar tanta favela,

Produtora de miséria.

Senhores governistas,

Dê condição ao homem do campo

Pra afincar o pé na terra

E não venha pra cidade grande

Mendigar, humilhado na miséria.

 

Vamos fazer essa reforma agrária

Troque o cimento pelo arado

E pra o pobre agricultor dê alento,

De plantar e de colher.

Chega deste progresso louco

Que dá riqueza pra poucos

E levam muitos à morrer.

Tira o povo da terra natal

Levando pra passar mal

Na selva de cimento e concreto.

 

Nas suas construções

Que não constrói riqueza pra dividir.

Só riqueza pra acumular

E droga pra seduzir,

Na imundice dos lixões,

Em sepulturas clandestinas,

Em valas abertas, sepulturas sem caixões.

 

Como é triste, o pobre, sair de sua cidade,

Vir morrendo de saudades,

Sofrer em Terra alheia...

 

Ângelo Paraiso Martins

 



Escrito por Angelo Paraiso Martins às 22:58:05
[] [envie esta mensagem] []


 
  [ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]  
 
 
Meu perfil
BRASIL, Nordeste, SALVADOR, Homem, de 56 a 65 anos
Outro - www.paraisomartins@bol.com.br

HISTÓRICO



    OUTROS SITES
     UOL - O melhor conteúdo
     BOL - E-mail grátis
     Jornal de Poesia
     Alma de Poeta
     Veropoema
     AVSPE
     Eugênio C.Almeida-Angola
     Galinha Pulando
     Bardo Celta


    VOTAÇÃO
     Dê uma nota para meu blog!